
Sangue letrado
Sangro minhas palavras no papel.
Eu as sangro no papel, pois é uma maneira bem mais
gentil do que o que desejo.
Eu as sangro no papel e despejo meus sentimentos por
elas, esperando que eles nunca voltem, nunca resistam, nunca
existam, mas eles voltam.
Eles voltam para mim como um anzol que me puxa, uma
lara, para as profundezas de um oceano em tempestade, que,
apesar de estrondoso na superfície, é tão calmo no fundo!
Eu me sinto uma jarra de vidro.
Eu me sinto uma jarra de vidro, e o ar que se encontra
em mim tão ansioso para sair, e o peso da água me pressionando,
e eu afundo cada vez mais, cada vez mais água sobre mim, até...
Um dia, a jarra vai rachar.
E a rachadura vai se espalhar por toda a superfície.
E, nesse dia, o ar vai sair, e eu serei uma com o mar.
Esse mar calmo e sem luz, sem esperança e tão
deliciosamente pesado.
Eu sangro no papel, frustrada. Quero sangrar, mas não
posso. Sangro então meus sentimentos, meus lamentos, minha
não vida.
É que ainda me encontro na superfície do mar, em um
barco a remo, no meio de uma tempestade sem fim. São ondas
do tamanho dos medos que me assombram. São os monstros
que me seguram acima d'água que me aterrorizam.
Deixem-me ir...