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Algumas vezes eu fecho meus olhos e me imagino nua.
Nua de pele, nua de história, nua.
Me imagino crua. Me imagino ar, me imagino vácuo.
E é tão pacífico, tão saborosamente nada, que me perco e
penso repetidas vezes que isso se parece com a morte.
E, nesse instante, eu quero conhecer a morte.
Quero agarrar sua mão fria e morar com ela. Estender um anel
de noivado em sua direção e me envolver em sua paz sem fim, sem
fundo.
Me sinto culpada. Pelo desperdício que sou.
Pessoas jogam suas boas vontades em mim e elas se perdem
para sempre no labirinto. Pessoas colocam seus esforços em mim e
mal sabem que a única coisa que quero realmente é jogar tudo fora. É
me jogar fora.
Fechar os olhos e me sentir levar no colo de minha esposa, tão
gentilmente como onda do mar, tão sereno e certo; simplesmente mais correto que respirar.
É que cada respiração é um sufoco; cada passo, um lamento;
cada piscar, um sonho.
Um dia.
Um dia, eu não serei mais capaz de andar. Serei tão devastada
que nem cadeiras de rodas poderá me manter. Serei tão destroçada,
tão deliciosamente machucada que, um dia, eu não precisarei mais
deste corpo.
Serei livre.
Sou presa em uma jaula, sem misericórdia. Existo e resisto
entre grades grossas que me deixam claustrofóbica. Estou sem ar, na
calmaria do olho de um furacão. Estou sem ar, e eu desejo tanto estar
realmente sem ar, para sempre.
Sou palavra jorrada no papel em hora de desespero, mas
mostro verdades que minhas máscaras nem sempre escondem. É que
guardava tudo em mim, em segredo, e mecansei. Não tenho forças,
nem vontade.
Não tenho forças.
Não tenho forças para viver.

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