top of page

Duas criaturas de cristal


Era uma vez uma criatura de cristal.
Era reluzente, caminhando com a confiança de uma criança, a
inocência dos puros, a ingenuidade dos loucos.
Era uma vez, mais tarde, uma criatura de cristal quebrada.
Era rachada, caminhando com a incerteza dos covardes, a
insegurança dos estranhos, a ingenuidade dos loucos.
Eram várias vezes uma criatura de cristal destroçada.
E mesmo assim continuava de pé.
E ela nem sabia o porquê.
Era outra vez uma criatura de cristal.
Era alegre, correndo com a agitação de uma criança, a
juventude dos puros, a beleza dos loucos.
Era outra vez, mais tarde, uma criatura de cristal manchada.
Era coberto de piche, correndo com a timidez dos covardes, a
desconfiança dos estranhos, a beleza dos loucos.
Eram várias vezes uma criatura de cristal destroçada.
E mesmo assim ele continuava de pé.
E ele nem sabia o porquê.
Era uma vez as criaturas se encontraram.
E ele viu sua beleza quebrada, e ela viu sua beleza manchada.
Ela o amou como nada no mundo.
Ele a amou como nada no mundo.
E os dois foram felizes.
Era uma vez, mais tarde, uma criatura de cristal quebrada.
Mas seus cacos saíam de sua pele como navalhas.
Eram várias vezes depois.
Uma criatura de cristal desamparada.
Matara seu amor com suas desgraças.

bottom of page