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História de minha morte


Alguns dias começam ruins. Alguns dias, a única coisa
que quero fazer é me enfurnar na cama e não sair de lá nunca
mais e morrer de desidratação. Ou de fome. Não importa.
Mas esses não são os piores dias. Os piores dias começam normais.
Meu “normal” nunca foi exatamente bom. Meu “normal”
é um dia em que eu não penso em me matar a cada segundo que
passa. Meu “normal” é um dia em que eu não choro escondida,
torcendo para que alguém me veja e pergunte se está tudo bem,
quando eu certamente responderia “sim, estou ótima, e você?”.
Meu “normal” é um dia em que eu penso que tenho a chance de
ser feliz, mas que, lá no fundo, sei que nunca serei felicidade.
Meu “normal” é um dia em que me matar é apenas a menos
provável das alternativas.
Os dias bons são um vício. São uma gota de cor num mar
de piche. São uma montanha fria num vale escaldante. Os dias
bons são o barato antes da abstinência.
Os dias bons são ele, e apenas eu e ele, e seus braços em
volta de mim. Os dias bons não têm guerras contra mim mesma,
não têm garras em minha garganta.
Os dias ruins têm.
Os dias ruins não se parecem nada com um furacão. Nem
com um terremoto ou um tsunami. Os dias ruins são garras em
volta da minha garganta, que eu sei que irão furar minha pele no
segundo em que eu engolir as lágrimas. São garras que eu sei
que, no segundo em que eu tropeçar, deslizarão pela minha
carne até dilacerar o que sobrar da minha alma. Nos dias ruins,
cada passo que tomo é um desejo. Cada segundo que passa é a
vontade. Cada respiração maldita é a ardência, o desejo de que
as garras, enfim, cumpram seu papel.
Hoje. Hoje foi um dia péssimo.
Arrastei meus pés no chão com a incerteza fraca de
pernas que não aguentam mais o peso da vida. Falei com a voz
rouca de quem não porta pulmões que respiram por querer.
Levantei os braços e comi com a força de vontade de um suicida.
Hoje, o dia todo, eu lutei contra mim mesma.
Lutei contra as minhas inseguranças, minhas certezas,
minhas vontades. Lutei contra mim, e ganhei.
E perdi.
E dormi.
E dormi.
E dormi.
E nos sonhos eu era livre. E nos sonhos eu estava morta.
É que, depois do começo, não há nada que não seja o fim.
Enrolei o tempo como um tapete velho e o coloquei no sótão
para me esperar. Ele já estava lá quando eu cheguei, mas eu não
sabia disso.
É que hoje foi um dia péssimo, e nada aconteceu para que
ele fosse assim.
Eu acordei. Eu vivi. E eu dormi.
No outro dia, eu acordei.
E vivi. E dormi.
Essa é a história da minha morte diária.

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