
Liberdade
Entrou e bagunçou toda a casa. Derrubou móveis que
estavam no mesmo lugar há séculos. Destruiu paredes que
pareciam impedir o movimento. Remexeu em caixas
empoeiradas que, escondidas no sótão, já estavam sendo
esquecidas.
No começo, fiquei confusa. Não entendia o que estava
acontecendo; minha casa, imutável, agora se via remexida por
um completo estranho. Depois, me assustei. Tentei fugir,
esconder as lembranças, as fotos, as caixas. Em seguida,
enfurecida, corri atrás do intruso como uma leoa protegendo a
cria. Aquela era minha casa, minha vida, e eu não ia mudá-la
assim, tão repentinamente.
Eis que o agarrei e olhei fundo em seus olhos. Era
majestoso, com asas que preenchiam toda a visão. Era das cores
de um pavão, um pássaro de outro mundo, que viera destruir
todos os meus (pre)conceitos.
Pegou-me pelas garras e voou comigo pela janela. Vi tudo
de muito alto: florestas e cidades e pessoas e oportunidades e vida,
vida para todos os lados. Era feliz, ali, no ar, observando tudo o que
eu nunca imaginara ver.
Voltamos para casa. Mas, desta vez, para uma casa sem paredes.
Nunca mais me senti presa...
