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Dilema de uma foto


A TV ligada na sala, em um canal qualquer, seu barulho,
a casa, suas luzes dançam e atraem. Os olhos da moça vidrados
na tela, vendo mulheres magérrimas e maravilhosas,
inteiramente maquiadas, completamente photoshopadas em
truques de câmera. Os olhos da moça vidrados na tela enchemse de lágrimas, telespectador. Sua dor, seu amor, sua pele em
flor, em fauna e flora, nada importa, telespectador, pois ela agora
mora de fora do seu próprio corpo, seu templo, seu modo de se
expressar comprometido. Ela anda até o espelho e se olha numa
marola de névoa ranzinza que enche a sala. Ela se olha,
telespectador, mas não vê a curva de seu sorriso, com suas
covinhas como os túmulos de quem roubou tal encanto, nem
mesmo vê os cabelos enrolados como coroa na cabeça, uma
rainha crespa, não vê as mãos fortes do sacrifício do ofício com
seu cheiro de silício extremo. Não. Vê apenas suas gorduras
nojentas, suas marcas e cicatrizes odiosas, e mesmo vê seu
passado, tão não condizente com o filme de Hollywood que
cremos viver. Choremos de dor e mágoa, pois a menina
batalhadora agora se diminui em frente ao espelho, odiando
cada centímetro das gorduras que a fazem grande mulher,
mesmo mulherão, com corpo violão, ou não, mas sua forma se
torna um torniquete que cura a loucura da cura forçada. Pega a
câmera, testa os ângulos. Quer ficar perfeita como as imperfeitas
mulheres da TV. Quer ficar linda dentro de um padrão que não é
alcançável, é duvidável, é deplorável. Ela testa os ângulos e ama
tirar foto de cima, pois aprende que rende um rosto fino como
linha, quase escondido no nada, realçando o busto robusto,
esperando alcançar alguma coisa, uma aceitação, uma
confirmação de que está no padrão, mas não, ela volta para a sala
e acha na marra que deveria morrer por não ser para você o que
ela acha que deve ser. E, depois de morta na horta na hora dum
show de televisão, em pleno domingo com suas dançarinas
malhadas e maquiadas e photoshopadas, ainda dizem que é
vitimismo, pois a ditadura da beleza é uma piada.
Quem dera, telespectador.

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